29 outubro 2008

Testemunho: Seguradora

É com tristeza que escrevo este testemunho, acima de tudo porque acredito que seria possível fazer as coisas de outra forma, mas parece que a lógica de lucro puro.

Trabalho numa Seguradora, como Consultor Estagiário. Foi-me dito que era um sítio para ganhar bom dinheiro, na formação foi-me incutido que faria parte de uma elite, a rede Private.

Trabalho a recibos verdes, nunca vou passar a contrato, porque não passo de um prestador de serviços. Tenho colegas com 20 anos de "casa", sempre a recibos verdes. Pago tudo do meu bolso, vou almoçar todos os dias fora, tento não passar dos 5 euros diários. Pago transportes, combustível quando vou ter com clientes, tudo e mais alguma coisa. Só não pago cartões de visita por sorte!

Em termos de condições de trabalho, foi-me dito que iria ter um portátil para trabalhar. Estou lá, há 1 ano e nada de novo, somos 4 pessoas para um computador ultrapassado.
Todos os dias, vejo o Subdirector e o Director a darem os bons dias à força de vendas elitista. Eles devem ter razões para andar felizes, têm carros dados pela empresa, entre outras regalias.

Temos um esquema estranho. Vou tentar explicar. Temos dois anos para fazer contratos suficientes que gerem comissões de, pelo menos, 9900 euros. Se isso não acontecer somos dispensados simplesmente. Recebemos ordenado que vai subindo ao longo dos dois anos até 1000 euros, a partir daí ficamos por nossa conta. Ou temos muitos clientes e prosperamos, ou simplesmente somos banidos.

Estamos a falar da maior Seguradora do Mundo, do maior gestor de activos, e do maior mentiroso em relação aos seus trabalhadores. Não temos horário de entrada nem saída, mas controlam todos os passos, é-nos incutida a inveja se algum colega faz um contrato mais expressivo, basicamente estamos em equipas sem espirito de equipa.

Eu pago 155,22 de Segurança Social todos os meses, tenho uma casa para sustentar, no entanto vivo no medo de ser dispensado, o meu gestor de equipa é ausente e não se preocupa com a situação.

Quando estamos abaixo de 75% do objectivo, não recebemos ordenado, andamos ali como leprosos a vaguear, em busca de alguém que nos faça um seguro para desbloquear a situação.

Isto não é normal, isto não é humano.

Isto merece ser denunciado. Eu não posso dar a cara porque os meus filhos precisam de comer, sinto que não vou chegar a lado nenhum. Sinto que estou a encher os bolsos à Companhia, que não gasta nada comigo.

Espero que depois deste testemunho percebam o porque do vosso mediador mudar tantas vezes, é porque simplesmente precisamos de comer...o tempo das vacas gordas já passou há muito...

5 comentários:

Anónimo disse...

Será que alguém está imune a estas situações? Estou á procura de emprego (recém-licenciado num curso científico-tecnológico numa universidade pública) e não encontro NENHUMA alternativa a uma situação deste género.

Ingenuamente pensei que o sector bancário e dos seguros estava mais protegido destas situações.

Emigra um colega de curso cada 2 meses- alguns nem o estágio fizeram cá. Um casal que estava três anos á minha frente no curso diz que não consegue juntar dinheiro suficiente para poder suportar a família que desejam.

Serei burro por querer ficar cá?

(desculpem o desabafo)

Anónimo disse...

Este país mete-me nojo cada dia mais que passa.
Vejo a minha vida totalmente destruída e agora já nem lá fora está bom ambiente para se fugir.
É vergonhoso o que nos fazem. Vergonhoso!

Joka disse...

Ao 1.º anónimo: não me digas que tiraste Biologia na Faculdade de Ciências do Porto?

Anónimo disse...

O que se está a passar é vergonhoso. No entanto, este "modus operandi" não é exclusivo de Portugal, em muitos locais do Mundo há casos semelhantes, isto tem a ver com a falta de valores e princípios (à excepção do dinheiro) que a sociedade apresenta.
Então como resolver? perguntamos.
Devemos unir-nos e expressar o nosso sentimento de injustiça e de impotência face a esta situação. Mas, na verdade, temos medo, receio e angústia, por nós, pelos nossos, pelas nossas coisas, etc, etc.
Não podemos mudar o mundo, mas podemos fazer algo neste País. Em
1º lugar - estar atentos às manobras da nossa classe dirigente (politicos e aspirantes a políticos), não nos deixemos ludibriar pelas suas jogadas.
2º lugar - Se nenhum deles nos convencer do seu projecto, devemos exercer o nosso direito de voto - votando em branco. É altura de saberem que se fomos à mesa de voto e não escolhemos nenhum é porque não apresentam programas que nos pareçam contribuir para o desenvolvimento colectivo (e não individual, que é o que tem acontecido.
De uma vez por todas é importante que a comunicação social se centre nos "Votos em branco", eles são uma forma de manifestação, e lhes dêem a devida importância. A sociedade está descontente e não é com o partido A, B ou C, mas com a forma como operam e permitem que funcione um sistema de injustiças, favorecimentos, etc.
Independentemente do que façamos, tentemos agir em consciência e na busca do colectivo e não do individual, creio que só assim conseguiremos o que ambicionamos.

Anónimo disse...

O seu testemunho, apenas, confirma aquilo que depreendi da 'conversa' de uma suposta 'acção de esclarecimento' através do IEFP, em que uma Seguradora (também muito conhecida) procurava 'angariar' candidatos para algumas sucursais, a nível nacional.
A situação que descreve, do seu dia-a-dia, foi o que me pareceu que iria acontecer.
Eu, por instinto (ou intuição, como queiram), acabei por não aceitar a proposta e rejeitei a oferta 'fora de série' que me apresentaram.
Compreendo bem a sua situação e desejo-lhe muita sorte e felicidades! Muito honestamente!
Um pequeno conselho: se tiver oportunidade, junto de alguém que conhece (que pode ser um cliente), procure mudar de ramo ou de empresa. Vai exigir-lhe muito trabalho e alguma persistência (e terá de o fazer um pouco nos 'bastidores'), mas durante um dia de trabalho, sempre que possível, procure gerir o seu tempo e canalizar algum do seu esforço para tentar encontrar outra saída. Mantenha esse emprego enquanto necessitar, mas depois, em conseguindo outra hipótese, mude!
Boa sorte!