11 outubro 2008

Empresa Muncipal de Lisboa

O caderno de emprego do semanário Expresso publica hoje um anúncio de tal forma abjecto que, mesmo não remetendo para o trabalho a recibos verdes, optámos por divulgar.

Uma empresa municipal de Lisboa solicita um candidato com licenciatura em arquitectura, ao qual oferece “integração em equipa competente, motivada e dinâmica e numa empresa com funções socialmente relevantes”.

No final, esta empresa, que cobardemente não se identifica, observa que se trata de UM ESTÁGIO NÃO REMUNERADO!

Parece-nos de uma desfaçatez indescritível que uma empresa municipal considere aceitável publicar um anúncio num caderno de emprego solicitando trabalho gratuito. Parece-nos ainda mais inconcebível que esta mesma empresa se apresente como desempenhando funções “socialmente relevantes” mas que não considere socialmente relevante pagar aos trabalhadores!


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Apresentamos o anúncio na íntegra e podem também consultá-lo aqui.


Descrição da empresa: EMPRESA MUNICIPAL - LISBOA

Descrição da função:
- Apoio ao licenciamento urbanístico;
- Apreciação de projectos;
- Manuseamento dos sistemas informáticos de gestão urbanística, documental e de georeferenciação implantados na Empresa;


Perfil do candidato:
O candidato deverá:
- Ter licenciatura em arquitectura;
- Possuir bons conhecimentos de informática;
- Ser responsável, perfeccionista, organizado;
- Ter capacidade de trabalho e de integração em equipa;
- Ter disponibilidade;
- Ter possibilidade de entrada imediata.


Oferta:
- Integração em equipa competente, motivada e dinâmica;
- Integração em Empresa com funções socialmente relevantes;


Observações:
ESTÁGIO NÃO REMUNERADO.

7 comentários:

Anónimo disse...

Sinceramente...já n são só os trabalhadores a recibos verdes ( e talvez nunca tenham sido!!) que sõa vítimas de injustiça. Hoje em dia o nosso país parece estar a "formar" patrões sem escrúpulos, exigentes e impressionantemente insensíveis! O que é que esta malta toda quer? Que nos vamos embora do NOSSO país? Porquê que a vida laboral dos portugueses está a caminhar em direcção a um abismo? Como é que quem tem poder não vê (ou não quer ver) o que se está a passar??????
Esta situação exige um novo 25 de Abril, mas de preferência noutra data, uma data que assinale uma nova revolução!

Anónimo disse...

Cara FERVE, sou estagiário (de acesso á Ordem) de arquitectura numa Câmara Municipal e entrei após concurso para um cargo que desempenho a tempo inteiro.

Na minha área de residência não tive quaisquer propostas para estágios remunerados e aceitei este após consultar a Ordem que me notificou: "recomendamos a todos os patronos a remuneração dos estagiários mas não temos poder para a garantir".

Uma colega trabalha para um membro da lista vencedora da Ordem da minha área geográfica que não paga aos estagiários (8 horas diárias de trabalho)...

Tomei recentemente conhecimento de que os advogados e administrativas realizam estágios PEPAL e recebem dois ordenados mínimos (não são estágios profissionais).

Existem centenas de novos estagiários todos os anos, sendo fácil "renová-los" e estou vulnerável a ser substituido- como poderei proceder?

Agradeço qualquer ajuda que seja possível prestar.

Anónimo disse...

Esta é uma das razões pelas quais a nossa economia estar no estado em que está... Querem tudo a custo zero.

Já perdi a conta de ofertas de trabalho não-remunerado que tive no passado, e é uma atitude que as próprias universidades fomentam para complementar um ensino que de si próprio é desiquilibrado e incompleto, já que o único objectivo é manter um qualquer currículo oficializado pelo estado.

O problema é que qualquer recém-licenciado ao fim de andar 3 anos a bater com a cabeça nas paredes, é perfeitamente normal que se aperceba que afinal não é assim tão boa ideia este tipo de perspectiva...

Não me interpretem mal... Eu considero boa a ideia de um estágio não-remunerado quando este apenas envolve uma participação não activa por parte do estagiário. Subentenda-se aqui que é uma espécie de acompanhamento e observação, mas sem intervenção directa. Mas a partir do momento em que essa participação se torna produtiva, então remuneração adequada é obrigatória. PARA QUALQUER TIPO DE TRABALHO.


É que se torna complicado, principalmente quando se tem já na carteira muitos anos de trabalho e experiência, ouvir-se numa entrevista "vai ter que ficar à experiência durante três a seis meses, sem receber... Só para perceber se tem dedicação e nós percebermos se gostamos do seu trabalho".

Qualquer empresa que não pague aos seus profissionais já me faz "perceber" tudo o que eu queira acerca dela...

E é algo feito à descarada, desenganem-se. Basta só circular por sites como o "grande" www.cargadetrabalhos.net em que antes ainda se tentava disfarçar um pouco a coisa, mas agora não. Apresentam um palavreado/imagem "fixe", e logo no fim largam a bomba. Basta verem.
Aliás, por alguma razão é que agora se tem que registar no site para poder responder às ofertas, a partir de determinado ponto devem ter começado a receber imenso "hate mail". Assim pelo menos há controlo na censura...

Como Designer passei por montes dessas experiências até chegar ao ponto de em muitas entrevistas me levantar e vir embora a meio. Mas não se enganem... Em todas as áreas isto se passa. Apenas mais numas que outras, e os arquitectos, ao lado dos designers, são dos que mais sofrem... Inclusivé, chegam-nos a pedir que PAGUEMOS pelos estágios. O que nesta perspectiva, nos faz pensar com mais carinho nos 120-150€ mensais (ou menos), de subsídio de estágio em que fazemos o mesmo, ou mais, que qualquer outro profissional de carteira. Isto sem qualquer supervisão e acompanhamento de um profissional mais escalonado (mas espera... não é suposto isso acontecer num estágio?)
Dou-vos o exemplo que um amigo meu jornalista (na altura estagiário da Sábado), partilhou comigo num desabafo:
"Andamos nós sem horários, sem folgas certas, sem receber, a fazer piquetes pela noite dentro (turno da noite, em que têm de ficar de plantão em horas que podem ir até entre a meia-noite e as três da matina); para o dono da revista ir para eventos num Bentley."


Até tenho outros casos de empresas que são propriedade e geridas por funcionários dos centros de emprego que utilizam estas estratégias... Quando perfeitamente podiam tê-los aos abrigo do estágio profissional.



Pensem nisto.

citadino disse...

Que geração a nossa!
estamos lixados se não fizermos alguma coisa para acabar com esta escravidão. Uma coisa podemos fazer já: não aceitar qualquer tipo de trabalho como este da CM Lisboa.

Anónimo disse...

vejam mais exemplos deste no próprio site da Ordem dos Arquitectos...que supostamente deveria zelar pela dignidade do exercício profissional dos seus associados, mas que no fundo comtibui para esta lamentável realidade em que vivemos.

tms disse...

A não remuneração de arquitectos implica o não cumprimento dos artigos 9º (Remuneração do arquitecto) e 12º (Deveres do Arquitecto Empregador ou do responsávelhierárquico) do Estatuto da OA e das Recomendações sobre Ética e Deontologia da UIA aceites pela Ordem dos Arquitectos, designadamente no seu ponto 5.11.

Anónimo disse...

Os escritórios e serviços que empregam arquitectos não têm nem precisam de recibos verdes porque já há muito tempo que descobriram a "mina" que são os milhares de estagiários que disputam entre si os raros lugares a trabalhar de borla para que tenham direito a exercer a sua profissão!

É só pôr um anúncio meter 2 ou 3 a fazerem levantamentos e pormenorização de borla 8-9 horas por dia (que ainda agradecem) e subsituí-los no ano seguinte- que maravilha.

Entretanto a Ordem, que tem das maiores receitas em termos relativos, organiza trienais.