21 novembro 2008

Testemunho: Teatro

Tenho amigos cantores, bailarinos e actores a trabalhar num teatro muito conceituado. Trabalham a recibos verdes e têm contrato de seis meses, que pode ou não ser renovado depois.

O último contrato que receberam foi há cerca de uma semana mas a data que consta é de Setembro.

Não têm horário fixo. Em tempo de ensaios costumam começar a trabalhar às 14.30h (uma vez por outra um pouco mais tarde) e acabam quando a chefia assim entende, o que habitualmente é entre a 1h00 e as 4h30. Mas já aconteceu saírem às 7h. E nesta altura, em ensaios, só recebem metade do salário acordado.

São obrigados a apresentar atestado médico para justificarem as faltas. Foram avisados que se se lesionassem mais que três vezes eram postos na rua. E se faltarem a um espectáculo, sem justificação médica, têm que pagar 25 000 euros de indemnização. Se quiserem rescindir o contrato, têm de avisar com 60 dias de antecedência.

Têm um dia de folga por semana em tempo de espectáculos, se não calhar terem que fazer propaganda aos espectáculos nos meios de comunicação social. Em tempo de ensaios também acabam muitas vezes por não ter folga.

Ainda assim, é o local que a maioria dos artistas considera como mais 'seguro'. Isto é o melhor que se arranja no nosso país.

15 comentários:

Anónimo disse...

Vah para o estrangeiro.

Anónimo disse...

A cultura é dos sectores mais desprezados do país, quer em termos profissionais, quer em termos de valorização, de incentivos ou apoios. Ainda se parte do príncipio que os artistas não precisam de comer pois fazem tudo por prazer. Também tenho amigos actores, cantores e bailarinos e alguns deles há muito que tentam demonstrar a este governo algo semelhante ao modelo francês onde os artistas têm caixa própria com direito a baixas, subsídios, etc. pois todos descontam, em proporção aos seus salários, para a mesma instituição. Este modelo permite ainda receber salários nos momentos de "criação": por exemplo se eu for realizadora e estiver 5 meses enfiada em casa a escrever um filme, não terei ainda receitas sobre o mesmo mas receberei salário.
Claro que em França os artistas são mais bem pagos mas, perdoem-me os portugueses, parece-me que o sentido de comunidade é maior...
Não parem de lutar. É mais fácil quando o fazem em equipa.
Arquitecta (a tal que está doente)

Anónimo disse...

Meus Caros Companheiros do Recibo-Verdismo,

Diz o povo e é verdade que "Em casa de ferreiro espeto de pau"

Quando o Estado tem ao seu serviço pessoas qualificadas em regime de recibo verde e se apregoa a combater os recibos verdes, está tudo dito: diz o roto para o nu...

Anónimo disse...

Meus Caros Companheiros do Recibo-Verdismo,

Diz o povo e tem razão que em Casa de Ferreiro o Espeto é de Pau

Quando o Estado se apregoa a combater os recibos verdes e tem ao seu serviço nesse regime pessoas qualificadas, está tudo dito: diz o roto para o nú...

Anónimo disse...

Gostava de deixar um elogio ao primeiro comentário, sem dúvida extremamente inteligente...

polar disse...

pois é....eu sei de fonte segurissíma que malta trabalha há anos para o Filipe La Féria e para a Teresa Guilherme nesse nauseabundo sistema de Recibos Verdes...e esses crâneos do País vem para as T.V's vestidinhos de cordeiritos!!!!!
cheira-me tanto a bosta!!!!mas tanto....

Anónimo disse...

Boa tarde.

Trabalho faz mais de 1 ano com recibos verdes, pelos quais tenho que pagar os descontos, ivas, etc.
Acontece que embora trabalhe a partir de casa, utilizo os meios da empresa. Telefone, Computador, internet. Bem como também tenho que cumprir ordens de superiores.
Sinto a pressão do "se não fizeres vais para a rua na hora".
Tendo em conta do que já tenho lido sobre, considerei que estou num regime totalmente ilegal.

Alguém me poderá elucidar melhor sobre, como denunciar, que direitos, etc.?

Anónimo disse...

Ir para o estrangeiro é uma solução fácil. E muitos de nós fazem isso. Mas creio que todos nós temos o direito de trabalhar no nosso país com condições e segurança. Que seria da (pouca) cultura deste país se todos nós fôssemos para fora? Além disso, ir para fora custa dinheiro. Não podemos simplesmente mandar um currículo e arranjar trabalho, temos que nos deslocar, fazer audições, tudo isso tem custos que muitos de nós não conseguem suportar.

A. (quem escreveu o post)

Anónimo disse...

Arquitecta,
é verdade que o espírito de equipa em França e em muitos outros países da UE é maior. Mas aqui o meio é pequeno, quando damos a cara acabamos por ser queimados. E não nos podemos dar ao luxo de ser queimados quando praticamente não há por onde escolher. Os meus amigos que trabalham nestas condições obviamente não concordam com elas, mas sabem que não podem arranjar melhor. E eu, por exemplo, podia ter assinado este post visto que não trabalho nesse teatro, mas não sei se um dia precisarei de lá trabalhar. Nem numa audição me aceitavam se soubessem que falei disto.

A. (quem escreveu o post)

Assim Não! disse...

Aproveito também para deixar um pequeno testemunho por aqui. Tirei o curso de tradução em Lisboa e arranjei um trabalho quase de seguida, ao contrário de grande parte dos meus colegas, e pensei: boa, afinal não era tão dificil assim. Ofereciam muitos sonhos nas suas propostas, esforçavam-se por fazer-me acreditar que eu era um sortudo por estar ali, que aquilo era um emprego de sonho... e lá comecei... nos primeiros três meses devo ter recebido 300 euros.. ao todo! Afirmavam que era uma fase inicial, um estágio. Depois disso mandaram-me trabalhar em casa.. recibos verdes , sem qualquer regalia, e o pior é que tive de ser eu mesmo a adquirir os programas necessários para trabalhar, que eram mais caros do que o dinheiro que eu ganhava. Aguentei uns meses e segui caminho, assim ninguém tem gosto em trabalhar por Portugal. Um abraço cheio de força a todos os que passam pelo mesmo!

The shade of my shadow disse...

E depois vamos todos para o estrangeiro e o nosso governo que chore. A culpa não é nossa. Estou na luta contra os recibos verdes!

Anónimo disse...

A.:

Compreendo a sua questão e perfeitamente o anonimato. E sei das vossas lutas e explorações. Sei até de agressões físicas por parte de 1 "grande cenógrafo" português cujo nome acaba em "éria" e que irrita muito nos ensaios...
Creio é que não me expliquei bem: o meio cultural português é mesmo muito pequeno e maltratado e, talvez por isso, tenha grupos tão distintos que parecem lutar em frentes diferentes. Parece-me (embora esteja por fora), por exemplo, grupos de actores de teatro, que não lutam com os de tv, etc. Podem ser poucos mas são bons e, todos juntos, mesmo vindos de sítios diferentes, poderiam fazer uma grande classe :)
Beijos e bom trabalho

A arquitecta

Anónimo disse...

Sou recibos verdes numa multinacional desde 2002, sempre com o coração na boca sem saber o que vai acontecer no dia seguinte, sempre pressionado, sem horário laboral, sem subsídios. Se tivesse idade emigrava, estou farto do meu país.

Anónimo disse...

O pré-aviso de 60 dias é também válido para a entidade patronal. O Estado usa essa cláusula nos seus contratos de fornecimento de serviços... Isto é recibos verdes falsos!

VM disse...

Não se pode adoecer!
Quando não há trabalho...não comes!
Mas este MEDO que nos governa atodos não nos deixa avançar!
Medo de desagradar a esta ou aquela entidade, medo de ficar na prateleira, e não vejo ninguem com vontade de LUTAR, antes do 25 de Abril não haviam na nossa (pouca) classe "tantos" antifascistas? Não lutavam contra acensura etc. etc?
E agora?
Não há quem queira dar a cara contra a injustiça de não termos o direito "mínimo" de viver dignamente? A culpa é nossa, só nossa.
Se alguem me disser VAMOS LUTAR, eu vou!
Vera Monica