17 julho 2007

Testemunho: Sociologia

Começo por felicitar a vossa iniciativa. De longe, reúnem e aproximam situações decadentes, deprimentes, aflitivas e claras de uma situação política e empresarial que prospera neste nosso Portugal.

Incrivelmente, Portugal é o país que mais trabalhadores "independentes" tem e eu sou mais um caso. Com licenciatura e pós-graduação na tão malfadada sociologia, ainda tive a sorte de encontrar em dois anos de espera um trabalho na minha área de formação. Tudo parecia idílico. Posso felicitar-me por ter atingido tão almejado objectivo, quando inocentemente me confrontei com a triste realidade partilhada neste blog.

Claro está que me foi comunicado que teria de arranjar recibos verdes, para poder assumir um cargo de coordenação, num programa de prevenção para jovens com comportamentos de risco. A primeira surpresa surgiu quando me vi a negociar o salário. De €700 passei para €800 e ainda ouvi a seguinte frase do empregador:

- "Tem muita sorte em receber isto... a maior parte dos seus colegas nem emprego tem e se o têm recebem muito menos".

Como é de conhecimento comum, tirem os €151, mais a retenção na fonte de 21% e façam as contas ao que me sobra mensalmente.

Logicamente, meio boquiaberta, fui controlada pelo ímpeto do amor-próprio. Em breve percebia a trama engenhosa dos ditos "recibos verdes". Embora surja na lei a questão da isenção de horário, pude perceber que da lei à realidade vai um longo e tortuoso caminho.

Cumpro um horário das 9:00 às 17:30, obedeço claramente a uma chefia, dependo das instalações e materiais do empregador. Até aqui, nada foge ao que é visivelmente norma institucionalizada.

Subitamente, vejo-me a acumular funções arbitrariamente (a minha versatilidade estava em cheque), a trabalhar ocasionalmente aos sábados e domingos das 9h até às 20h e a ouvir:
- "Sabe que não pode cobrar horas extraordinárias. Conhece a lógica do seu contrato não é!?"
Mais uma vez, estupefacta submeti-me ao silêncio e resolvi gritar em casa.

O mais absurdo de tudo isto, e no meu caso não é o pior de todos; é o choque que sofremos ao ouvirmos estórias semelhantes, casos de jovens que investiram 4 a 5 na formação académica, a pedido do Estado e das empresas, sob o mote da "Promoção e Desenvolvimento dos Quadros Técnicos de um País" pobre em qualificação, desejoso de crescimento económico e social, ansioso pela sua auto-estima e pelos resultados competitivos enquanto membro da União Europeia e depois é isto.

Jovens qualificados, sejam eles técnicos nível III ou V, que na sua maioria ouviram os pais e que receberam todo o tipo de apoio para a prossecução dos seus estudos, para na sua maioria morrerem na praia.

Claro que existem casos de sucesso, e feliz fico por eles. Lamento, e é por isso que aqui estou, pelas 2 gerações que não vê singrar o seu esforço e trabalho.

Muitos de nós, atingem diariamente todos os limites possíveis com receio do cancelamento de contrato.

Muitos de nós, vê-se a receber sem reclamação uma remuneração onde tirando todos os descontos possíveis, circunscreve-se a um claro indicador de pobreza disfarçada.

Muitos de nós, adiam com 30 anos projectos individuais, exactamente porque não têm o mínimo controlo no seu futuro.

Todos nós sabemos o que é não TER direito a estar doente, subsídio de alimentação, transporte, seguro de saúde, subsídio de férias...

Reina o paradoxo da desmotivação e do sacrifício.

Ainda mais triste é a clara maioria, (onde me incluo) de preferir a categoria de anonimato com receio de represálias.

Claramente pergunto-me como provocar a mudança! Começar pela reunião é o primeiro passo, a divulgação é o segundo momento e por fim...procurar mudar.

Acredito profundamente na minha geração.

Acredito que todo este esforço e espírito de sacrifício merece uma recondução da nossa parte.

Contem comigo para fazer barulho!
Anónima

1 comentário:

cadeira do poder disse...

Pelo contrário, este Governo, em que muitos de nós alegremente votaram, prepara-se para alterar o Código do Trabalho para facilitar ainda mais os despedimentos.