28 janeiro 2008

Testemunho: Agência de Comunicação

Local: uma agência de comunicação algures na Maia.
Circunstâncias: eu tinha respondido a um anúncio para copywriter.

Entrevistadora: Eu chamei-a aqui, mas não por causa do anúncio. Fiquei interessada no seu currículo, mas para outras funções. Fale-me, por exemplo, do seu trabalho com a imprensa.

Nesta altura eu falei do que tinha feito: dos artigos publicados, da grande projecção que a minha anterior empresa teve graças à exposição na imprensa.

Entrevistadora: Pois, é que a estagiária que eu tenho aí... Vou ter de falar com ela, porque ela teve um mês para fazer um trabalho e não conseguiu. Tive de ser eu a pegar no telefone... [Já está a pensar em mandar a estagiária embora.] Bem, agora vamos à parte ingrata: quanto é que quer ganhar?

Eu: Bem, na minha empresa eu ganhava 1500€…

Entrevistadora (escandalizada): Nem eu, que sou directora desta empresa, ganho isso!

Eu: Eu compreendo que se tratam de empresa com dimensões completamente diferentes. Tendo isso em conta, e tendo em conta as funções a desempenhar, acho que o justo serão 1000€.

Entrevistadora (abanando a cabeça): Impossível... Impossível... Completamente impossível. Sabe, nós aqui temos uma política em que ninguém é mais importante que ninguém. O designer, por exemplo, não é mais importante que o account. Nesta empresa todos ganhamos o mesmo, inclusivamente eu. [Pergunto-me como é que se pode pagar o mesmo a toda a gente, independentemente da função e da experiência. Será que o pessoal da limpeza também ganha o mesmo? Esta mulher deve ser comunista...] Aqui todos ganhamos 750€ líquidos.

A directora da empresa a querer convencer-me que ganha 750€ por mês! Se não fosse tão triste, era a piada do ano.

Eu: Mas 750€ líquidos não está assim tão distante dos 1000€ brutos que eu lhe estava a pedir...

Entrevistadora: Espere! Não acabou por aqui. Como é lógico, eu não posso contratar ninguém sem saber se a pessoa vai corresponder às minhas expectativas ou não. Assim, todas as pessoas que aqui entram (a não ser que se trate de um sénior com 10 anos de experiência) passam por um período experimental de 3 meses em que ganham 150€.

E pronto, foi assim que fiquei a perceber de onde vinha a falta de motivação da estagiária para o trabalho.

PS - Sou licenciada em Marketing e tenho cerca de 3 anos de experiência.

Anónima

9 comentários:

Senhor M disse...

Cara anónima:
Conheço a empresa e a entrevistadora em causa. A pessoa que a entrevistou não lhe faltou à verdade em relação aos salários dos trabalhadores (por muito comunista que lhe possa parecer). Na questão do "passam por um período experimental de 3 meses em que ganham 150 euros" já lhe dou alguma razão. É realmente pouco e até mesmo alguém que esteja à experiência merece melhor. Agora, receber, com apenas 3 anos de experiência, 1500 euros, já me parece bastante inflacionado... boa sorte para as entrevistas, até porque é isso que refere aqui... apenas uma entrevista

experiente disse...

Caro senhor M...

Denote que era isso que ela recebia na empresa anterior.

E noutro aspecto, qualquer licenciado, por lei, tem que receber no mínimo 2xsalário mínimo... Não me parece o caso.

E mais, se ela comprovou que o que fazia no espaço anterior, era qualitativamente bom não vejo porque não haveria de justificar os 1500.
Agora... "toda a gente recebe 750€"? Já ouvi semelhante várias vezes e sempre descobri vir a ser mentira.


...e gostava de ver umas quantas pessoas a aguentarem-se com 150€ por mês. Nem com 750€ quanto mais...

Anónimo disse...

Caro Senhor M,

"Apenas uma entrevista" revela como certos patrões, hoje em dia, se aproveitam e exploram quem procura emprego, por saberem da saturação do mercado de trabalho.

Obrigada por me dar "alguma razão" na questão dos 150€. Na realidade, eu também não lhe faltei à verdade: ganho 10 vezes mais, se calhar porque, apesar dos 3 anos de experiência, sou uma pessoa que provou o seu valor. Felizmente ainda há empresas que o reconhecem.

guerreiro disse...

Boa noite,
também considero que 150 euros mensais mesmo para quem não tenha experiência é "exageradamente" pouco... Pelo menos façam como em algumas empresas em que já fui entrevistado, primeiros 3 a 4 meses a recibos verdes, com ordenados normais, e depois contrato de trabalho de 1 ano (se houver acordo de ambas as partes).
Também concordo que felizmente ainda há empresas que reconhecem o valor dos seus trabalhadores, pena que no nosso país sejam muito poucas...

Guerreiro

FERVE disse...

Caros/as intervenientes nesta situação de entrevista:

- O FERVE é um movimento que visa criar um espaço de debate sobre as situações de uso incorrecto de 'recibos verdes';

- A situação aqui descrita foi publicada, após alguma ponderação, apenas devido ao facto de o valor proposto como pagamento durante o estágio ser de 150 euros.

- Até ver, ninguém contestou a veracidade deste testemunho, nem dos valores referidos.

- Gostaríamos de relembrar que os contratos de trabalho (a termo ou sem termo) já prevêm um período de experiência, durante o qual qualquet uma das partes pode rescindir contrato.

- O blog pretende ser um espaço de debate de ideias e experiências de trabalho a recibos verdes, não uma troca de acusações entre partes.

- Se me permitem, sugiro que falem pessoalmente sobre questões que possam ter ficado pendentes aquando desta entrevista.

Pelo FERVE;

Cristina Andrade

sapiens disse...

Este testemunho é HILARIANTE, mas infelizmente o retrato de muitas situações em portugal. Estou actualmente a tirar uma pos-gradução em Gestão de Recursos Humanos e não vejo outro caminho para iniciar funções se não a realização de estágios não remunerados em empresas de trabalho temporário "adecos" "vediors" e outras que tais. Os estágios têm a duração de 3 meses em full time ou de 6 em part time pois parecem ser estes os limites legais para o efeito.

Os estagiários são de imediato informádos de que não haverão quaisquer hipóteses destes virem a ficar na empresa, uma vez que findo o periodo de estágio outro escravo virá trablhar de borla para o seu posto.

A unica remuneração que algumas oferecem é o subsidio de alimentação mas nunca para além dos 6,17€, pois de outra forma já teriam de pagar impostos pelo nosso trabalho.

Como preciso de dinheiro vou adiando esta ideia de andar a trablhar de borla para empresas que fazem da borla a sua unica fonte de mão de obra. Prefiro continuar á procura de trabalhos administrativos onde serei sempre uma segunda escolha por ter habilitações a mais.

maria de lurdes disse...

Tudo isto é uma pouca vergonha.
Não há quem denuncie estas coisas?
Conheço uma senhora com demasiadas habilitações,mas infelizmente com 58 anos, demitida em Dezembro último (estava a recibos), que se encontra actualmente num call center a auferir a maravilhosa quantia de 300euros. E deslocar-se 10 quilómetros.
É justo????

Que vergonha de país!
Não se dá valor à experiência!
Não se dá valor a nada!!
Pode-se omitir a experiência mas não a idade!!!!

Anónimo disse...

Olá Sapiens,

Sou a pessoa que escreveu o testemunho. Só hoje vi o seu comentário.

Também eu já fiz um estágio de 3 meses sem receber absolutamente nada, nem sequer subsídio de transporte ou alimentação. E a dificuldade que tive para arranjar o estágio!!! Nem para trabalhar de graça me queriam.

Mas tratou-se, apesar de tudo, de uma situação diferente: era um estágio curricular...

Ver-me deparada com esta proposta mais de dois anos depois de ter acabado a faculdade, e já com experiência acumulada... Bem, acho que a situação fala por si...

Felizmente, após ter sido enganada algumas vezes, já perdi bastante da inocência que me caracterizava quando acabei a faculdade... o que me permitiu recusar esta proposta.

Sim, porque eu sempre fui uma pessoa que acreditava que se me esforçasse iria ser compensada pelo meu trabalho... Hoje sei que não é bem assim, muito menos numa empresa que está a mandar uma estagiária embora para no seu lugar colocar outra!

Boa sorte para si.

Mariana disse...

Este caso está longe de ser único, sou licenciada em Design de Comunicação (está o meu testemunho acima descrito como "Design"); depois de terminar o curso fui a muitas entrevistas, a maior parte propunha um salário de 500€ sem contrato (a recibos verdes, claro). Passados 6 anos cá estou como trabalhadora independente a ganhar uma média de 375€ dos quais 95€ vão para a segurança social.
Num mundo ideal um licenciado deveria receber 1500€, mas em Portugal, pode esquecer...